24 de fev de 2010

“Eu sonho em ser comum”

Em meio aos brinquedos dos filhos gêmeos, Mateus e Mariana, de 2 anos e meio, Flávia Cintra, 37 anos, recebeu a reportagem de QUEM em sua casa, na Zona Sul de São Paulo. “Eles não param um minuto, mas essa movimentação na casa é a coisa que mais amo neste mundo”, diz ela. Assim como muitas mulheres, Flávia engravidou sem planejar e foi morar com o pai das crianças. O relacionamento não deu certo e, também como muitas outras mães separadas, ela se divide entre a rotina de trabalho, os filhos e a casa. “A diferença entre mim e você é que estou em uma cadeira de rodas e a maior parte das pessoas que vive em uma cadeira de rodas não consegue ter uma vida comum”, diz ela, que é tetraplégica desde os 18 anos. “Quero deixar de ser exceção, quero que tenha tanta gente que faça coisas incríveis com cadeira de rodas, que trabalhe, que engravide, que eu vou deixar de ser diferente. Eu sonho em ser comum.”

O sonho de Flávia e a vontade de enfrentar sua deficiência foram a inspiração para o novelista Manoel Carlos escrever Viver a Vida. Na ficção, o autor retrata a deficiente Luciana, interpretada por Alinne Moraes. Assim como na vida real de Flávia, Luciana ficou tetraplégica, mas sua condição não a impedirá de se casar e ser mãe. A intenção do autor é diminuir o preconceito por meio da novela. “Um médico chegou a quase me sugerir um aborto, dizendo que era uma irresponsabilidade minha ter engravidado. Muita gente se surpreende e fala ‘nossa, eles fazem sexo!’. Com a novela, tenho certeza de que vão pensar de modo diferente. Já está na hora”, defende Flávia.

AMOR À VIDA
Foi essa determinação que emocionou Manoel Carlos. “Fiquei fascinado com a história dela e decidi que iria tratar de superação na minha novela. Flávia tem fibra, coragem e, o que é fundamental, um amor incondicional à vida. Sem isso, teria sucumbido às dificuldades, que, tenho certeza, foram muitas. Flávia é uma dessas pessoas que lutam e vencem adversidades que nos parecem invencíveis. Que sofrem, mas não desistem. São exemplos de perseverança e que testemunham a validade e a importância da vida. De estar e permanecer vivo”, afirmou o autor a QUEM.

Flávia – que se tornou jornalista após o acidente que a deixou tetraplégica, trabalha na coordenação de um projeto de inclusão de portadores de necessidades especiais em uma universidade paulista e dá palestras a empresas sobre inclusão – foi convidada por Manoel Carlos para ensinar Alinne Moraes a se comportar em cena como deficiente. “Cheguei a pensar que não daria conta de fazer esse trabalho, porque meus filhos ainda são pequenos, mas vi que era importante para mim e para milhões de pessoas com histórias parecidas ajudar a mudar a forma de retratar a deficiência.” Flávia aconselha a atriz emocionalmente e consegue ver na televisão o progresso de seu trabalho. “Alinne realmente encarou as dificuldades e o sentimento em torno do papel. Ela está tão entregue que chega a impressionar, contraiu uma infecção renal de verdade, uma doença frequente nas mulheres cadeirantes. É uma coincidência assustadora”, disse Flávia.

Para Maneco, a experiência de Flávia foi fundamental para a construção da personagem. “Quero mostrar que é possível superar os problemas se não perdermos a esperança de encontrar um caminho plano em meio às subidas e descidas da vida. É possível ser feliz, apesar das dificuldades”, disse o autor, sobre a força de vontade de Flávia. Aos 18 anos, Flávia voltava de um feriado prolongado com o namorado, que estava ao volante. Eles não corriam e não haviam bebido, mas um corpo estirado no meio da rodovia, em São Paulo, mudou a rota do veículo e a vida de Flávia para sempre. “Capotamos várias vezes e eu fraturei o pescoço.” Na época, ela trabalhava como secretária para ajudar a mãe, Carmem, contribuía para pagar as despesas de casa e auxiliava no cuidado dos três irmãos mais novos. Bonita, alta e magra, fazia bicos como manequim de passarela nas horas vagas. “Até nisso há semelhança com a Luciana, mas a história dela não é igual à minha em tudo. Ao contrário dela, não tinha aspirações como modelo, era só um hobby.” A conduta exemplar da adolescência não saía da cabeça de Flávia quando, no hospital, recebeu a notícia de que havia ficado tetraplégica em decorrência do acidente. “Era como se eu achasse muito injusto. Eu não queria acreditar no pior.” Maneco também usou as recordações desse momento da vida de Flávia na trama. “Luciana está tendo que rever seus conceitos e reaprender a viver com todas as limitações que a fatalidade lhe deu”, afirma o escritor.

PERGUNTA DIFÍCIL
Assim como nas cenas da novela, aos poucos, na vida real, o quadro clínico de Flávia melhorava e ela começou a ter esperança. “Como recuperava alguns movimentos e a sensibilidade do corpo dia após dia, achava que fosse melhorar até levantar e andar.” No dia da alta, a jovem se encheu de coragem e fez a pergunta que lhe tirava o sono. “Eu tinha que saber se voltaria a andar algum dia.” Para surpresa da paciente, o médico disse não saber. “Aquele ‘não sei’ foi muito generoso comigo. Sair de lá com aquela esperança foi fundamental. Se ele tivesse dito ‘não’, poderia ter me afundado. Eu tenho muita sorte e tive pessoas boas a meu lado, sempre dispostas a ajudar”, diz, emocionada.

MÃE DE SANTO E ÓLEO BENTO
A volta à rotina não foi fácil. “Retornei àquela minha vida de antes, que não era minha vida de antes. As pessoas eram bem-intencionadas, mas não sabiam efetivamente como ajudar. Minha casa virou uma peregrinação. Era mãe de santo, filha de Maria, vela de não sei onde, óleos bentos por não sei quem, todo tipo de conforto religioso. Fiquei exausta”, lembra, bem-humorada. Depois de fazer um tratamento gratuito em São Paulo, Flávia sentiu que o convívio com outros portadores de deficiência foi um tanto traumático. “Encontrei muita gente acomodada à própria condição e não queria aquilo para mim. Tudo era muito ‘pra baixo’ e estava quase desistindo de pensar de maneira diferente. A deficiência era algo feio, a gente era tratado como coitadinho, e eu não gostava disso.” Antes que desistisse, ela conheceu um grupo de pessoas que pensava como ela e estava disposto a lutar pelos direitos das pessoas com deficiência.

ONU
Flávia fundou uma organização não governamental em Santos, onde morava, e lá começou o trabalho de conscientização que lhe rendeu um convite para representar o Brasil em uma convenção sobre o tema, organizada pela ONU, em Nova York, nos Estados Unidos. “Voltei ao Brasil cheia de ideias, sabendo que poderia mudar tudo”, afirma, entusiasmada. “Naquela época, vinham me ajudar porque pensavam ‘coitada, condenada a uma cadeira de rodas...’. Hoje, as pessoas podem até pensar a mesma coisa, mas o sentimento principal é a indignação de não haver acesso para um cadeirante. Achei que não fosse estar aqui para ver isso acontecer. Até na novela, agora, podemos ter um final feliz na cadeira de rodas. As pessoas estão mudando, a sociedade melhorou.”

Fonte: Quem - Notícias
por Patrícia Moraes

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